Undressed

O despir físico é banal e comum: intimidade é o despir da alma.

Nunca pertenci a quem mostrei o meu corpo, se nunca se soube encontrar poesia nas minhas estrias e prosa nas minhas cicatrizes.
De nada serve o meu corpo nu, a quem nunca soube ler as entre linhas do arrepio da minha pele e do suster da minha respiração.
De nada serve o meu corpo despido, se nunca se viu para além das curvas nem se amou nunca a arte por detrás da silhueta imperfeita que é este o meu ser.
Nunca fui tua se nunca nos deitámos, juntos e nus, pela mera inocência que é sentir o teu peito contra o meu.

Somos mais que meros corpos.
Somos todas as formas que os nossos sinais formam,
Somos o arrepiar de pele e os suspiros cansados.
Somos prosa e poesia.
Céu, e mar.

Somos os poetas e os artistas,
Que tu nunca possuíste,
Que nunca despiste,
Nem nunca tocaste:

Porque eu sou fogo e gelo,
Sou a praga e a cura,
E sou livre.

Porque como um dia te disse,
Pertencemos ao mundo inteiro e não pertencemos a nada..

...nem a ninguém.


Só eu sou inteiramente minha.

Dilacera-me

Dilacera o meu corpo,
enquanto susténs em ti o pouco de ar que te resta.
Dilacera a minha mente,
enquanto a ti te questionas quem és.
Rasga este meu peito,
enquanto sangras as palavras que um dia, erradamente, te ofereci.
Rasga o meu peito, apenas um pouco mais
e desta vez, que me libertes:
Liberta-me da jaula que é este o meu corpo,
mas que me ensines a voar.
Liberta a minha alma e vê-me escapar-te por entre os dedos,
que nem grãos de areia, que te fogem sem assim dares por eles.
Sem assim o desejares.
Mas repete comigo,
Que existe beleza na destruição.
E grita em plenos pulmões para que todos te oiçam,
que eu nasci do caos, e que por isso me chamo Calma,
e que tudo em mim é luto,
e por isso sou Esperança;
Mas que já nada em mim és tu,
nem já nada a ti te pertence,
porque mãos sujas em anjos não tocam,
e porque eu sou fogo que não extingue,
mas que ousa queimar.

Instantes

Podia ter escrito mil poemas sobre o teu olhar ou descrito o teu sorriso de mil e uma maneiras. Podia ter erguido uma religião sobre admirar-te.
E, até sobre amar-te.
Podia ter subido ao topo do ponto mais alto da cidade, e gritar a plenos pulmões que me possuías: por inteiro, e para sempre.

Mas não o fiz.

Decidi guardar-te num instante, numa memória; e levar-te para sempre no meu peito.
Decidi memorizar cada segundo; Cada traço e cada sarda do teu rosto.
Parei o tempo no preciso momento em que me olhaste...
E guardei-te.

Imortalizei o teu olhar, e tornei éfemero tudo o resto; O resto não importa quando se trata de ti.
Ainda assim, adiei o inadiável: Sorri-te, e segui.
Segui, sabendo que quis o fado levar-me até ti.
Segui, sabendo que nada mais seria o mesmo.
Mas mentiria se dissesse que o meu ser consciente e racional tinha seguido sabendo que jamais pertenciaria a outro alguém. Ou sabendo que jamais me perderia noutro olhar, senão o teu.

É que eu sempre te pertenci.
Sou tua desde o dia em que te guardei, ingénua e inocente sem saber ao certo porquê.
Fiz de ti um altar digno de Olimpo: E que nem crente, agarrei-me à esperança. Que nem poeta, agarrei-me ao sonho.
Que nem eu, agarrei-me a ti.

E quiseram os Deuses levar-me até ti.

Hoje amo-te como amo ser livre.
Hoje amo-te e sei que já nos amámos antes: Noutras vidas, num outro universo, quiçá?
E hoje eu amo-te, na calma que é saber que te (re)encontrarei em muitas outras vidas;
Em muitos outros universos.
Ou talvez até sejas tu o meu universo, porque vejo no teu olhar galáxias e oiço na tua voz as estrelas.

Ou talvez nada disto seja real,
talvez as almas gémeas não existam,
nem os anjos,
nem outros universos:

Mas se assim for..
Então faço as malas,
pego no casaco..
E vivo no lar que são os teus braços.

Porque não há mundo sem anjos em que valha a pena viver.
Nem existem universos sem amor.
...Ou sem ti.

Liberdade

Aprendi a viver pelas coisas banais. Pelas coisas temporárias.
Aprendi a viver por todas as cores do ano, por todos os mares que não vi e por todas as palavras que ainda não aprendi.
Vivo por todos os novos sinais que encontro por ti espalhados, e por todos aqueles que ainda não contei. Vivo por todos os grãos de areia que ainda não pude sentir nos dedos dos pés, e por todas as gotas de chuva que o meu rosto ainda não sentiu.

Hoje vivo assim: vivo á espera do próximo outono, para que possa escutar o barulho das folhas que piso; Vivo á espera que chova, por todas as pocinhas de água onde ainda não pude saltar.

Vivo á espera de todos os pores do sol, para que o meu peito se encha de todas as cores de que o céu é feito.
Vivo á espera de todos os nascer do sol, e faço do cantar dos passáros o meu hino.

Vivo pela forma como os cantos dos teus olhos franzem quando sorris, ou pela forma como entrelaças os teus dedos nos meus.
Vivo pela forma como os teus olhos se perdem nos meus, e como sempre sorris antes de me beijares.
Vivo pela forma como te enrroscas em mim quando dormimos lado a lado, pela forma como a tua mão procura sempre a minha e por todos os suspiros que deixas escapar quando por fim a seguras.

Na verdade, vivo por nós.
Pela forma como os teus olhos brilham quando falamos em aventura (e como que, de todas as palavras que existem, essa seja a tua favorita)
Pela forma como, ainda que não entenda porquê, sempre seguramos a mão um do outro quando partilhamos uma gargalhada.

A vida é fascinante e o mundo é um lugar bonito.
Demorei 18 anos até proferir estas palavras.
Mas hoje.. Hoje sinto-me livre: Livre como nunca antes me permiti ser.
Hoje sinto-me leve, tão leve que me sinto capaz de voar.

Hoje, sou livre.
Livre de todos os meus fantasmas.
De todas as correntes que me prendiam.
Da jaula que era este corpo que me prendia.

Hoje sou livre.
Livre para ser tua.
Livre porque sou tua.

Hoje sou tua.
E hoje vivo...

...Vivo, por todas as aventuras que nos esperam.

Os humanos fascinam-me.

Curioso que há sítios que nos pertencem,
sítios que nos fazem sentir em casa, apesar de nunca neles termos morado;
Curioso como há pessoas que nos pertencem,
que há tanto delas em nós,
como de nós existe nelas.

Curioso como o lar para nós é mais que um sítio;
Mais que quatro paredes;
Curioso como o lar são pessoas
e são os teus braços envoltos nos meus.

Na verdade, lar é onde quer que tu estejas.
Lar é onde tu me dás a mão.
Me abraças.
Me beijas.

"Nasci no dia em que me apaixonei no mundo", li.
Apaixonei-me pelo mundo no dia em que te conheci.
Nasci no dia em que me apaixonei por ti.

São tantas as frases que traduzem o nosso amor;
E no entanto, resumo-o numa palavra só:

Surreal.

Porque eu nunca me senti em casa,
até ter conhecido o teu abraço.
Porque sempre vagueei pelo mundo,
não sabendo que todas as estradas me levariam a ti.

Porque durante toda a minha vida me limitei a existir.
E hoje, hoje vivo.
E tudo isto, graças a ti.

Palavras nunca serão suficientes para te agradecer.
Até porque como se agradece a alguém que nos devolveu à vida?

Amo-te, e sei que sabes.
Só ainda não o admitimos.